A propósito das recentes noticias de alguns (muitos!) clubes de futebol com o pagamento dos salários aos seus atletas em atraso, aqui vai uma pequena reflexão:
O desemprego chegou ao futebol…
O aumento do desemprego é uma das mais graves consequências do fenómeno da globalização. Em Portugal, a globalização tem-se feito sentir intensamente e o número de desempregados não tem parado de crescer: são as fábricas e indústrias nacionais que não conseguem por no mercado os seus produtos a preços que possam competir com os de outros países, por um lado, e são as grandes empresa, em especial as multinacionais que “fogem” da crise económica nacional, procurando mão-de-obra mais barata noutros países, como são os do Leste europeu, recém-chegados à União Europeia. Resumindo é a falência de pequenas e médias empresas, a deslocalização das multinacionais e o desemprego de famílias inteiras.
No âmago desta problemática ouvem-se, então, por todo o lado, vozes que exclamam que “isto está bom é para a política e para o futebol!”. Mas não…Por mais estranho que possa parecer, o problema do desemprego também já chegou ao (quase) intocável mundo do futebol.
Neste universo, as desigualdades são igualmente visíveis: os três grandes clubes (Futebol Clube do Porto, Sporting Clube de Portugal e Sport Lisboa e Benfica) continuam a crescer e os restantes, de pequena e média dimensão, vão-se afundando no fundo da tabela classificativa, tanto económica, como desportiva.
De facto, têm surgido, nos diferentes meios de comunicação, referências ao atraso no pagamento dos salários de vários clubes, aos seus atletas.
Com estas noticias ficamos a conhecer uma realidade futebolística um pouco diferente da que estamos habituados. Na verdade, os milhões de euros, os carros topo de gama, as roupas dos melhores estilistas, não fazem parte do quotidiano de toda esta classe social. Também aqui as desigualdades sociais se vão tornando cada vez mais perceptíveis e preocupantes. Nem todos os jogadores de futebol profissionais têm os mesmos benefícios, quer económicos, quer sociais, dependendo do clube com quem assinam um contrato. Paralelamente com outras empresas de pequena ou média dimensão portuguesas, os pequenos clubes atravessam graves crises económicas, que por sua vez, têm repercussões na vida dos seus atletas.
São-nos apresentados várias histórias de jogadores de futebol, que se encontram sem receber o seu salário há mais de cinco meses, estando outros mesmo já desempregados, sem clube onde jogar. Esta situação agrava-se quando afecta jogadores estrangeiros, em especial de origem africana, que, para além de terem de garantir os seus próprios meios de subsistência, são, diversas vezes, também o sustento da sua família que se encontra no país de origem. Nestas situações, e tal como é referido por um desses atletas no artigo em análise, “valem os familiares e os amigos na hora de pagar as contas” (Visão, 2005) e por vezes velem mesmo desconhecidos: “receio passar por alguém que me ajudou e não o reconhecer. Davam-me dinheiro, levam-me fruta, convidavam-me para comer.” (Visão, 2005).
Sabendo que a maior parte destes jogadores tem entre 18 e 25 anos e perante este cenário de debilidade social, coloca-se no ar várias questões: como é que se terá efectuado a vinda para Portugal destes jogadores? Em que condições terão sido feitos os seus contratos? Não terão eles outras formas de fugir a este desemprego, procurando outro tipo de ocupação profissional?
Alguns destes jogadores vêm muito novos para as Academias de Formação dos grandes clubes. Aqui são formados para serem grandes estrelas de futebol...porém...não há lugar para todos. De acordo com a opinião do sociólogo João Sedas Nunes, citado no artigo “Fora de Jogo”, “os clubes são menos clubes, o espírito de empresa instalou-se e tudo é pensado em função de um negócio. A começar nos escalões de formação.”
O desejo de “construir” grandes jogadores ultrapassam questões essenciais, como é a da formação académica do atleta, formação essa que poderá muitas vezes ser a “tábua de salvação” para um jogador de futebol desempregado.
Raros são os jogadores de futebol que prosseguiram os seus estudos, ficando a maior parte deles apenas com a escolaridade obrigatória. O seu desejo (e do clube onde estão inseridos) é de se tornar um jogador de futebol profissional, não admitindo, por vezes, qualquer outra possibilidade. Não obstante, e mesmo que o venham a ser, há que ter em conta que esta profissão tem uma duração limitada, o que, por sua vez, nos desperta a atenção para uma outra questão importante: e depois do futebol? De facto, torna-se cada vez mais pertinente reflectir sobre estas questões, logo desde a formação dos atletas.
Esta breve descrição e caracterização da atitude quotidiana de todos os que integram as academias de futebol de formação (atletas, treinadores ou dirigentes) revela algumas das falhas existentes no sistema de formação desportiva. Na minha opinião, estas “ausências” situam-se, essencialmente nas seguintes áreas: gestão de expectativas; conciliação da vida académica com a vida desportiva; mediação entre clube, escola e família, com uma referência especial para os atletas que vivem na própria academias, longe da família; entre outras. Contudo, é também verdade que, actualmente já se começam a visualizar algumas preocupações de alguns clubes, relativamente a estas problemáticas, que se traduzem na sua procura em construir “verdadeiras” academias de formação, onde o termo “formação” é tomado integralmente. Isto é, começa-se a notar a preocupação em permitir aos jovens atletas uma formação equilibrada, em todos os aspectos: formação desportiva (neste caso, de futebol), académica, social e psicológica (pessoal). Por exemplo, os três grandes clubes portugueses apresentam, neste momento, projectos bastante interessantes de academias de futebol de formação.
Voltando um pouco atrás, e paralelamente as estas considerações, importa reflectir sobre a premissa inicial destas apreciações: o desemprego no futebol. Tal como o desemprego em qualquer outra profissão, surgem várias opiniões que procuram justificar a origem do referido problema. Uns poderão apontar a razão do desemprego dos jogadores de futebol para os próprios atletas, enquanto outros a poderão encontrar na família e ainda outros a poderão atribuir ao clube a que o atleta pertence. Para os primeiros, essa “culpa” justifica-se pelo desinteresse pessoal dos atletas, que não prosseguiram os seus estudos, onde poderiam ter uma segunda via para ultrapassar a situação de desemprego. Os segundos, consideram que o facto da família, muitas vezes, passar para as mãos do clube a obrigação de educar e formar os jovens atletas como cidadãos (com uma referência para os atletas que vivem nas academias e estão longe da família), deixa a descoberto certas maneiras de pensar e agir, que apenas são conseguidas pela socialização primária do indivíduo e que no futuro lhe poderão ser essenciais na estruturação do seu projecto de vida. Relativamente a esta questão importa sublinhar a seguinte afirmação, relatada no artigo da Revista “Visão”: “os jogadores, esses, têm um poder negocial limitado. Só uma pequena elite consegue impor cláusulas contratuais, A esmagadora maioria ganha mal – quando ganha.” Por fim, e no que diz respeito àqueles que vêem na acção do clube a grande causa para o desemprego dos jogadores de futebol, justificam-se pela especialização precoce dos atletas, que mais tarde se torna prejudicial, na medida em que não têm, como já foi referido anteriormente, alternativas profissionais, que poderiam ajudar a ultrapassar possíveis situações de desemprego.
Mas onde residirão, afinal, as causas do desemprego no futebol?