deambulações sociológicas acerca do futebol

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

A transformação simbólica do atleta profissional

Contemporaneamente coexistem, no nosso entender, três formas de estar no futebol: como espectador, como atleta amador, que pratica pelo prazer do desporto, e como atleta profissional, que procura no futebol o seu meio de subsistência. É neste terceiro caso que centraremos a nossa análise, a partir deste momento.

O crescente número de indivíduos que anseiam tornar-se jogadores de futebol profissionais é bastante vísivel contemporaneamente. Os treinos de captações de grandes e pequenos clubes estão sempre com a lotação esgotada: milhares de crianças e jovens procuram que alguém os veja e os ajudem a concretizar o sonho que os move.

Mas porque razões se verifica esta ânsia de ser jogador de futebol profissional? Consideramos existir diversas e distintas razões: é quase inquestionável o prazer que este desporto provoca aos seus praticantes, motivado pelas pelas suas características de desporto colectivo e que pode ser praticado com escassos recursos materiais. Contudo, as significativas transformações que o futebol sofreu, tornando-se num negócio mundial, tornou os seus praticantes profissionais em indivíduos com um estilo de vida desejado por muitos, sendo isto uma repercursão da economia capitalista dominante. Mais uma vez, também este fenómeno social vem confirmar o futebol como uma personificação da sociedade em que vivemos: “os grandes atletas se transformaram em mega-stars e são pagos não apenas para competir, mas para fazer propaganda de empresas e de produtos. (...) o esporte espectáculo tornou-se num grande negócio e está definitivamente inserido na economia capitalista” (ibidem:74).

Como tal, o futebol contemporâneo passa assumir, para além das características associadas ao capitalismo, como são a mercantilização ou a empresarialização, características associadas ao espectáculo e à mediatização. De facto, um jogo de futebol é hoje, claramente, um espectáculo que vai para além das performances desportivas, pois envolve muito mais do que isso: é preciso ter em conta toda a mediatização à volta dos atletas, que ultrapassam os noventa minutos de jogo e que se revelam nas campanhas publicitárias, no interesse da opinião pública nas suas vidas privadas, nas transações de um clube para outro, etc. De facto, “quando nos propomos a estudar as relações econômicas do esporte num mundo globalizado, estamos pensado em mercados desportivos de distintas naturezas, cujas dinâmicas se fundamentam na generalização de um estilo de vida que contempla o consumo de diferentes elementos do universo desportivo” (ibidem:102).

Tendo-se tornado num fenómeno globalizado e mediatizado, o futebol transformou os seus praticantes em personagens simbólicas que servem de guia a muitos projectos de vida ou simplesmente funcionam como símbolos de um clube, de uma região ou país, sobre os quais os indivíduos depositam confiança e expectativas na obtenção de vitórias que os superiorizem a outros. Tal como defende Proni (1998:101), “o esporte-espectáculo é visto sobre o prisma da “pós-modernidade”, isto é, da perspectiva da construção de novos ícones e modelos de comportamento no interior de um campo cultural – o esporte – que se distanciou dos valores “modernos” que o haviam configurado e lhe deram significado”. Paralelamente, será, pois, no seio dos desportos que acompanham de uma forma mais próxima o desenvolvimento e as novas configurações da sociedade contemporânea, como é o futebol, que irão emergir esses atletas-referência.

A transformação do futebol num mercado globalizado manifestou-se em todas as suas vertentes, desde a comercialização de artigos desportivos, da participação em campanhas publicitárias, até à própria comercialização dos próprios atletas. Consequentemente, toda esta nova dinâmica económica associada ao futebol leva a que haja uma “generalização de um estilo de vida que contempla o consumo de diferentes elementos do universo desportivo” (ibidem:102). Fruto ainda da profissionalização deste desporto e da sua transformação empresarial, o futebol reforçou o seu impacto simbólico na sociedade de massa, sabendo que desde sempre foi o desporto preferencial de muitos, importando ressaltar que “o sucesso do futebol profissional, enquanto espectáculo de massa, esteve intimamente relacionado tanto à sua preferência como principal opção de lazer colectivo das camadas médias e baixas da população urbana quanto à ascensão social que ele proporcionou – ascensão social não só para os negros, e certamente não para todos que se aventuvam em praticá-lo profissionalmente” (ibidem:193).

Deste modo, “os determinantes que mais directamente influíram na estruturação do futebol profissional dizem respeito (a) à vida social e política da nação; (b) ao prestígio social que os dirigentes esportivos adquiriram ao comandar uma campanha vitoriosa; (c) ao aparecimento de uma nova carreira profissional; e (d) ao papel que os heróis da bola passaram a representar no imaginário popular” (ibidem:194).