deambulações sociológicas acerca do futebol

sexta-feira, 20 de março de 2009

Quando os sonhos se desvanecem...

Hoje estou em baixo... queria tanto trabalhar na área do desporto...tanto investimento académico e as oportunidades demoram a surgir...

Claro que não me posso queixar, tenho trabalho e gosto do que faço, mas não é "aquilo", não é a bola dos meus sonhos... procuro, procuro e a oportunidade não me encontra... enfim.

Mas não desisto, claro, tal como todos aqueles que têm sonhos, não podem desistir! Como tantos míudos que sonham ser grandes jogadores de futebol e com um estádio a gritar o seu nome!

Mas lá está, como sempre defendi nas minhas deambulações académicas esses sonhos têm de ser geridos, balizados, tal como o meu, de trabalhar num departamento de futebol e formação! Sonhos orientados e equilibrados, mas sempre alimentados! E é isso que tento fazer!

P.S: Parece que me faz bem escrever desta forma! ;)

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

A transformação simbólica do atleta profissional

Contemporaneamente coexistem, no nosso entender, três formas de estar no futebol: como espectador, como atleta amador, que pratica pelo prazer do desporto, e como atleta profissional, que procura no futebol o seu meio de subsistência. É neste terceiro caso que centraremos a nossa análise, a partir deste momento.

O crescente número de indivíduos que anseiam tornar-se jogadores de futebol profissionais é bastante vísivel contemporaneamente. Os treinos de captações de grandes e pequenos clubes estão sempre com a lotação esgotada: milhares de crianças e jovens procuram que alguém os veja e os ajudem a concretizar o sonho que os move.

Mas porque razões se verifica esta ânsia de ser jogador de futebol profissional? Consideramos existir diversas e distintas razões: é quase inquestionável o prazer que este desporto provoca aos seus praticantes, motivado pelas pelas suas características de desporto colectivo e que pode ser praticado com escassos recursos materiais. Contudo, as significativas transformações que o futebol sofreu, tornando-se num negócio mundial, tornou os seus praticantes profissionais em indivíduos com um estilo de vida desejado por muitos, sendo isto uma repercursão da economia capitalista dominante. Mais uma vez, também este fenómeno social vem confirmar o futebol como uma personificação da sociedade em que vivemos: “os grandes atletas se transformaram em mega-stars e são pagos não apenas para competir, mas para fazer propaganda de empresas e de produtos. (...) o esporte espectáculo tornou-se num grande negócio e está definitivamente inserido na economia capitalista” (ibidem:74).

Como tal, o futebol contemporâneo passa assumir, para além das características associadas ao capitalismo, como são a mercantilização ou a empresarialização, características associadas ao espectáculo e à mediatização. De facto, um jogo de futebol é hoje, claramente, um espectáculo que vai para além das performances desportivas, pois envolve muito mais do que isso: é preciso ter em conta toda a mediatização à volta dos atletas, que ultrapassam os noventa minutos de jogo e que se revelam nas campanhas publicitárias, no interesse da opinião pública nas suas vidas privadas, nas transações de um clube para outro, etc. De facto, “quando nos propomos a estudar as relações econômicas do esporte num mundo globalizado, estamos pensado em mercados desportivos de distintas naturezas, cujas dinâmicas se fundamentam na generalização de um estilo de vida que contempla o consumo de diferentes elementos do universo desportivo” (ibidem:102).

Tendo-se tornado num fenómeno globalizado e mediatizado, o futebol transformou os seus praticantes em personagens simbólicas que servem de guia a muitos projectos de vida ou simplesmente funcionam como símbolos de um clube, de uma região ou país, sobre os quais os indivíduos depositam confiança e expectativas na obtenção de vitórias que os superiorizem a outros. Tal como defende Proni (1998:101), “o esporte-espectáculo é visto sobre o prisma da “pós-modernidade”, isto é, da perspectiva da construção de novos ícones e modelos de comportamento no interior de um campo cultural – o esporte – que se distanciou dos valores “modernos” que o haviam configurado e lhe deram significado”. Paralelamente, será, pois, no seio dos desportos que acompanham de uma forma mais próxima o desenvolvimento e as novas configurações da sociedade contemporânea, como é o futebol, que irão emergir esses atletas-referência.

A transformação do futebol num mercado globalizado manifestou-se em todas as suas vertentes, desde a comercialização de artigos desportivos, da participação em campanhas publicitárias, até à própria comercialização dos próprios atletas. Consequentemente, toda esta nova dinâmica económica associada ao futebol leva a que haja uma “generalização de um estilo de vida que contempla o consumo de diferentes elementos do universo desportivo” (ibidem:102). Fruto ainda da profissionalização deste desporto e da sua transformação empresarial, o futebol reforçou o seu impacto simbólico na sociedade de massa, sabendo que desde sempre foi o desporto preferencial de muitos, importando ressaltar que “o sucesso do futebol profissional, enquanto espectáculo de massa, esteve intimamente relacionado tanto à sua preferência como principal opção de lazer colectivo das camadas médias e baixas da população urbana quanto à ascensão social que ele proporcionou – ascensão social não só para os negros, e certamente não para todos que se aventuvam em praticá-lo profissionalmente” (ibidem:193).

Deste modo, “os determinantes que mais directamente influíram na estruturação do futebol profissional dizem respeito (a) à vida social e política da nação; (b) ao prestígio social que os dirigentes esportivos adquiriram ao comandar uma campanha vitoriosa; (c) ao aparecimento de uma nova carreira profissional; e (d) ao papel que os heróis da bola passaram a representar no imaginário popular” (ibidem:194).

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Academia do Sporting em Oiã

Academia do Sporting abre pólo em Oiã. Será que o surgimento deste tipo de pólos de formação evitará o afastamento precoce da família, de alguns jovens atletas...?

http://desportoaveiro.blogs.sapo.pt/1797234.html

O Desporto e a Escola – contribuições do Estado para a conciliação


Torna-se indispensável, num momento em que o desporto assume uma importância crucial na vida de muitos jovens como possível carreira profissional, a existência de legislação específica que ajude estes atletas a conciliar a vida académica com a vida desportiva.
Desde já, importa alertar que apenas têm benefícios reais aqueles estejam abrangidos pelo estatuto de alta competição, estatuto esse que um atleta poderá usufruir a partir do momento em que atinge determinados resultados desportivos, de dimensão internacional.

Sendo assim, a partir do momento que um atleta obtém o referido estatuto passa a usufruir de medidas de apoio no âmbito do seguro desportivo e do regime escolar. Nesta análise centrar-me-ei apenas no regime escolar, que se encontra ao abrigo das medidas no capítulo III do Decreto-Lei n.º 125/95 de 31 de Maio. O Instituto do Desporto tem, neste regime, um papel de mediador entre o atleta e o sistema de ensino. Cabe a esse Instituto “comunicar, no início do ano lectivo, aos estabelecimentos de ensino a integração de alunos seus no sistema de alta competição” (art.9º), de modo a que a escola passe a ter em conta nas suas actividades lectivas a existências desses alunos abrangidos por um regime especial. Por outro lado, cabe igualmente ao Instituto do Desporto “comunicar às federações desportivas as informações que lhes sejam transmitidas pelos estabelecimentos de ensino relativas ao regime e ao aproveitamento escolar dos praticantes em regime de alta competição” (idem). Considero que esta troca de informações é de extrema importância para a criação das condições necessárias para o desenvolvimento equilibrado, dos jovens atletas, em termos escolares e desportivos. Só assim os próprios atletas se sentirão motivados para a prossecução dos estudos, já que sentem que existe uma preocupação de todas as partes para tal.
Continuando esta análise deste capítulo, no qual decorrem as considerações sobre o regime escolar, tomamos conhecimento que, em termos de faltas e frequência nas aulas também existem medidas facilitadoras para a conciliação da vida académica com a vida desportiva dos jovens atletas. Assim, verificamos que “aos praticantes em regime de alta competição que frequentam estabelecimento de qualquer grau de ensino devem ser facultados o horário escolar e o regime de frequência que melhor se adaptem à sua preparação desportiva” (n.º1 do art.11º) e em que se pode admitir “a frequência de aulas em turmas diferentes, bem como o aproveitamento escolar por disciplinas” (idem). Existe também uma legislação específica em relação às datas das provas de avaliação, como se verifica no artigo 13º. As datas das provas deverão ser marcadas, em especial aos alunos abrangidos por este regime, tendo em conta as competições em que participam, sendo essas datas de competições sempre fundamentadas numa declaração passada pelo Instituto do Desporto à escola.
Cada aluno em regime de alta competição deverá ter um docente que acompanhará a evolução do seu percurso escolar, tendo a função de detectar eventuais dificuldades, bem como propor medidas para a sua resolução (artigo 15º).
Não obstante, todos estes benefícios apresentados estão dependentes, por conseguinte, do aproveitamento escolar de cada atleta. Tal como refere no n.º2 do artigo 17º, “no final de cada ano lectivo deve ser elaborado pelo professor acompanhante um relatório sobre o aproveitamento escolar de cada um dos praticantes que beneficiem das medidas de apoio previstas nos artigos anteriores, que deve ser enviado ao Instituto do Desporto”, para a avaliação da continuação de atribuição do estatuto.
O acesso ao ensino superior é também facilitado aos atletas que possuem o estatuto de alta competição. A validade deste benefício é de dois anos após o fim do usufruto desse estatuto e qualquer atleta, neste âmbito, poderá ingressar num curso superior, sem que tenha necessidade de ir a concurso nacional de ingresso (artigo 18º do decreto-lei n.º393-A/99 de 2 de Outubro).

quinta-feira, 15 de maio de 2008

terça-feira, 13 de maio de 2008

O desemprego chegou ao futebol?

A propósito das recentes noticias de alguns (muitos!) clubes de futebol com o pagamento dos salários aos seus atletas em atraso, aqui vai uma pequena reflexão:
O desemprego chegou ao futebol…

O aumento do desemprego é uma das mais graves consequências do fenómeno da globalização. Em Portugal, a globalização tem-se feito sentir intensamente e o número de desempregados não tem parado de crescer: são as fábricas e indústrias nacionais que não conseguem por no mercado os seus produtos a preços que possam competir com os de outros países, por um lado, e são as grandes empresa, em especial as multinacionais que “fogem” da crise económica nacional, procurando mão-de-obra mais barata noutros países, como são os do Leste europeu, recém-chegados à União Europeia. Resumindo é a falência de pequenas e médias empresas, a deslocalização das multinacionais e o desemprego de famílias inteiras.
No âmago desta problemática ouvem-se, então, por todo o lado, vozes que exclamam que “isto está bom é para a política e para o futebol!”. Mas não…Por mais estranho que possa parecer, o problema do desemprego também já chegou ao (quase) intocável mundo do futebol.
Neste universo, as desigualdades são igualmente visíveis: os três grandes clubes (Futebol Clube do Porto, Sporting Clube de Portugal e Sport Lisboa e Benfica) continuam a crescer e os restantes, de pequena e média dimensão, vão-se afundando no fundo da tabela classificativa, tanto económica, como desportiva.
De facto, têm surgido, nos diferentes meios de comunicação, referências ao atraso no pagamento dos salários de vários clubes, aos seus atletas.
Com estas noticias ficamos a conhecer uma realidade futebolística um pouco diferente da que estamos habituados. Na verdade, os milhões de euros, os carros topo de gama, as roupas dos melhores estilistas, não fazem parte do quotidiano de toda esta classe social. Também aqui as desigualdades sociais se vão tornando cada vez mais perceptíveis e preocupantes. Nem todos os jogadores de futebol profissionais têm os mesmos benefícios, quer económicos, quer sociais, dependendo do clube com quem assinam um contrato. Paralelamente com outras empresas de pequena ou média dimensão portuguesas, os pequenos clubes atravessam graves crises económicas, que por sua vez, têm repercussões na vida dos seus atletas.
São-nos apresentados várias histórias de jogadores de futebol, que se encontram sem receber o seu salário há mais de cinco meses, estando outros mesmo já desempregados, sem clube onde jogar. Esta situação agrava-se quando afecta jogadores estrangeiros, em especial de origem africana, que, para além de terem de garantir os seus próprios meios de subsistência, são, diversas vezes, também o sustento da sua família que se encontra no país de origem. Nestas situações, e tal como é referido por um desses atletas no artigo em análise, “valem os familiares e os amigos na hora de pagar as contas” (Visão, 2005) e por vezes velem mesmo desconhecidos: “receio passar por alguém que me ajudou e não o reconhecer. Davam-me dinheiro, levam-me fruta, convidavam-me para comer.” (Visão, 2005).
Sabendo que a maior parte destes jogadores tem entre 18 e 25 anos e perante este cenário de debilidade social, coloca-se no ar várias questões: como é que se terá efectuado a vinda para Portugal destes jogadores? Em que condições terão sido feitos os seus contratos? Não terão eles outras formas de fugir a este desemprego, procurando outro tipo de ocupação profissional?
Alguns destes jogadores vêm muito novos para as Academias de Formação dos grandes clubes. Aqui são formados para serem grandes estrelas de futebol...porém...não há lugar para todos. De acordo com a opinião do sociólogo João Sedas Nunes, citado no artigo “Fora de Jogo”, “os clubes são menos clubes, o espírito de empresa instalou-se e tudo é pensado em função de um negócio. A começar nos escalões de formação.”
O desejo de “construir” grandes jogadores ultrapassam questões essenciais, como é a da formação académica do atleta, formação essa que poderá muitas vezes ser a “tábua de salvação” para um jogador de futebol desempregado.
Raros são os jogadores de futebol que prosseguiram os seus estudos, ficando a maior parte deles apenas com a escolaridade obrigatória. O seu desejo (e do clube onde estão inseridos) é de se tornar um jogador de futebol profissional, não admitindo, por vezes, qualquer outra possibilidade. Não obstante, e mesmo que o venham a ser, há que ter em conta que esta profissão tem uma duração limitada, o que, por sua vez, nos desperta a atenção para uma outra questão importante: e depois do futebol? De facto, torna-se cada vez mais pertinente reflectir sobre estas questões, logo desde a formação dos atletas.
Esta breve descrição e caracterização da atitude quotidiana de todos os que integram as academias de futebol de formação (atletas, treinadores ou dirigentes) revela algumas das falhas existentes no sistema de formação desportiva. Na minha opinião, estas “ausências” situam-se, essencialmente nas seguintes áreas: gestão de expectativas; conciliação da vida académica com a vida desportiva; mediação entre clube, escola e família, com uma referência especial para os atletas que vivem na própria academias, longe da família; entre outras. Contudo, é também verdade que, actualmente já se começam a visualizar algumas preocupações de alguns clubes, relativamente a estas problemáticas, que se traduzem na sua procura em construir “verdadeiras” academias de formação, onde o termo “formação” é tomado integralmente. Isto é, começa-se a notar a preocupação em permitir aos jovens atletas uma formação equilibrada, em todos os aspectos: formação desportiva (neste caso, de futebol), académica, social e psicológica (pessoal). Por exemplo, os três grandes clubes portugueses apresentam, neste momento, projectos bastante interessantes de academias de futebol de formação.
Voltando um pouco atrás, e paralelamente as estas considerações, importa reflectir sobre a premissa inicial destas apreciações: o desemprego no futebol. Tal como o desemprego em qualquer outra profissão, surgem várias opiniões que procuram justificar a origem do referido problema. Uns poderão apontar a razão do desemprego dos jogadores de futebol para os próprios atletas, enquanto outros a poderão encontrar na família e ainda outros a poderão atribuir ao clube a que o atleta pertence. Para os primeiros, essa “culpa” justifica-se pelo desinteresse pessoal dos atletas, que não prosseguiram os seus estudos, onde poderiam ter uma segunda via para ultrapassar a situação de desemprego. Os segundos, consideram que o facto da família, muitas vezes, passar para as mãos do clube a obrigação de educar e formar os jovens atletas como cidadãos (com uma referência para os atletas que vivem nas academias e estão longe da família), deixa a descoberto certas maneiras de pensar e agir, que apenas são conseguidas pela socialização primária do indivíduo e que no futuro lhe poderão ser essenciais na estruturação do seu projecto de vida. Relativamente a esta questão importa sublinhar a seguinte afirmação, relatada no artigo da Revista “Visão”: “os jogadores, esses, têm um poder negocial limitado. Só uma pequena elite consegue impor cláusulas contratuais, A esmagadora maioria ganha mal – quando ganha.” Por fim, e no que diz respeito àqueles que vêem na acção do clube a grande causa para o desemprego dos jogadores de futebol, justificam-se pela especialização precoce dos atletas, que mais tarde se torna prejudicial, na medida em que não têm, como já foi referido anteriormente, alternativas profissionais, que poderiam ajudar a ultrapassar possíveis situações de desemprego.
Mas onde residirão, afinal, as causas do desemprego no futebol?